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Minhas três catedrais

Na esplanada de meus sentimentos mais profundos, há três catedrais intimamente ligadas: a do Brasil, a da Bahia e a de Salvador.

Na primeira, entronizei os homens que construíram ou constroem a história do país: políticos, arquitetos e engenheiros, artistas, operários, as donas de casa, a gente que faz profissão de fé de tudo aquilo que realiza em nome do bem, do justo e do belo. Os que, enfim, germinaram e germinaram a esperança, o futuro e a concórdia.

A catedral da Bahia é a própria Bahia. O sândalo que a incensa vem do povo. Comumente, quando ali chego, recupero forças. É como se ouvisse um dos salmos de Davi e permitisse abrigar-me aos pés do Senhor do Bonfim, em contrita penitência pelos percalços que a vida nos impõe e nós impomos a ela.

A Bahia é meu território. Dos baianos sou apenas um amigo mais velho, que, às vezes, com ternura, outras, ranzinza, gosta de dar conselhos, tanto quanto de recebê-los, e cobra e gosta de ser cobrado por tudo o que pode e deve ser feito em benefício do povo. Enquanto forças tiver, não vou permitir, jamais, que ninguém a machuque. É o instinto de filho a defender a integridade física, econômica e sentimental da velha mãe, preservando-a como berço da civilização brasileira.

A Bahia festeja hoje 450 anos de fundação de sua capital, a veneranda Cidade do São Salvador. Peço licença para, respeitoso, agora ouvindo os cantos gregorianos com monges beneditinos, ingressar na terceira catedral de meus sentimentos.

Se a Bahia é meu território, Salvador é minha casa, dentro da qual outra casa construí. As duas às vezes se contestam, mas, quase sempre, se completam, e no fundo as duas me causam a sensação de intimidade com as coisas e as pessoas de que mais gosto: na primeira, o povo; na segunda, a família. Ambas, porém, constituindo a grande família baiana, na comunhão de sentimentos, em cujo seio me deleito nos momentos de felicidade e me consolo nos momentos de dor.

Confesso que depois que perdi Luís Eduardo, há quase um ano, ainda hoje, para mim, é um grande sofrimento retornar a Salvador. Ele fazia parte da paisagem humana de sua cidade, da cidade dos seus avós, seus pais, seus tios e irmãos, esposa, filhos e amigos – eram tantos os amigos na cidade, no estado e no país.

Reconforta-me, porém, à distância do tempo, saber que, se a sensação da dor é intransferível, ela pode ser partilhada solidariamente. Salvador é a capital do ombro amigo, seu povo cultiva o sacerdócio da solidariedade. É impossível ficar só nesta cidade tão universal quanto aconchegante quarto de dormir.

Por mais que tenha crescido através dos séculos, chegando hoje aos 450 anos como uma das maiores cidades brasileiras, ela jamais perdeu, nem vai perder, a ternura, a magia quase religiosa que deriva da índole fraterna de sua gente, do ambiente sacrossanto de suas igrejas e seus terreiros, dos segredos dos antigos casarões, de suas cantigas de beira-mar, de seus poetas e escritores, seus pintores, seus cantores e compositores, da sua miscigenação, de seus folguedos populares, da imensa capacidade que tem seu povo de mesclar trabalho com diversão, ensinando ao resto do Brasil e ao mundo que a vida é para ser vivida, com responsabilidade, mas com alegria, em frequência e intensidade iguais, os 365 dias do ano, todos os anos.

Minha cidade é singular e me orgulho, como seu prefeito na década de 60 e governador por três vezes, de tê-la ajudado a crescer sem perder o calor humano de que as grandes cidades jamais dispõem.

Sinto-me feliz por ter iniciado o processo de sua modernização, abrindo os espaços para que ela pudesse acompanhar a evolução dos tempos. E me sinto mais feliz por ter cuidado de que o processo de modernização se desenvolvesse de moda a se adaptar às tradições históricas, culturais e arquitetônicas da velha cidade, dentro do lema de construir o futuro sem destruir o passado.

O Pelourinho é o exemplo mais conhecido no Brasil do perfeito casamento do pretérito com o futuro, mas não é o único. Salvador chega aos 450 anos redescobrindo para a população seus parques, seus jardins, suas praias aos poucos sendo despoluídas, seus lagos e lagoas incorporados à paisagem da geografia lúdica dos moradores dos bairros mais distantes. Respira-se vida em minha velha e moderna cidade.

Aprendi e consegui transmitir a alguns de meus sucessores na prefeitura, infelizmente não a todos, que não basta encher de concreto as ruas e avenidas, povoá-las de túneis e viadutos. É preciso ter a ousadia do desbravador e a sensibilidade do poeta para distinguir a linha que separa o concreto da alma das cidades. O concreto e a alma são elementos que se casam perfeitamente em minha cidade.

Os conglomerados urbanos podem ter em comum com Salvador algumas das consequências da explosão demográfica, entre elas a crescente violência. Nenhuma, contudo, vai atravessar os séculos com a marca do humanismo que faz de Salvador cidade ímpar na história de nossa civilização. Se o indesejável equipara por baixo os grandes centros urbanos, o espírito fraterno dos baianos, particularmente dos de Salvador, nos separa por cima em nossas singularidades.

Gosto do modo como vive o povo de Salvador. É um modo de vida que inspira lealdade, fraternidade, solidariedade, ternura e doação, tudo o que meu saudoso Luís Eduardo simbolizou como figura humana que foi, antes de grande homem público.

Incluo o modo próprio, diria, feliz, como vive o povo de Salvador, como o resto da maioria dos baianos, entre os motivos principais das comemorações dos 450 anos da cidade.

Termino por renovar meu grande afeto à Bahia, que sempre foi a razão da minha vida, e a pedir ao Senhor do Bonfim que derrame sobre Salvador sua graça divina, hoje e sempre.

Antonio Carlos Magalhães

O Estado de S. Paulo, 29/3/1999

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