topo acm3

Jorge Amado comenta a restauração do Pelourinho

"Querido amigo, quando se ultrapassa os 80 anos com um infarto às costas, busca-se tranquilidade no dia a dia ameno do amor familiar, no calor da amizade, no contentamento, evita-se a tristeza para levar do mundo, quando a hora chegar, a imagem mais bela e mais alegre. Como fazer, porém, para evitar o desalento e a angústia se estamos rodeados de crianças sem lar, sem comida, sem futuro, se as crianças são assassinadas, se a miséria cresce, se alastra, impera, se a violência substitui a cordialidade, se a corrupção, o egoísmo, a mesquinhez corrompem e corroem as chamadas elites, e a realidade nacional é feia e suja? Aí como impedir o desespero, onde recuperar a esperança e recobrar o ânimo, onde revestir-se com a força necessária para crer no Brasil e nele confiar? Pois, no Pelourinho, eu diria aos pessimistas: andando pelas ruas, vendo o casario, os olhos bem abertos para poder acreditar na grandeza restaurada. Eis que de repente, no Pelourinho, encontrei a certeza de que nem tudo está perdido, existe algo limpo e belo, quase um prodígio.

Vivi no mais alto desses casarões, rapazola de 15 anos de idade, no Pelourinho iniciei minhas universidades – cursava os preparatórios nas fazendas de cacau aprendendo com jagunços, coronéis e alugados, a conquista da terra para plantas, a morte nas tocaias. No Pelourinho, com o povo pobre da Bahia, no convívio íntimo da vida, vivida intensa e apaixonadamente, aprendi quase tudo que sei. Capital da Bahia, da cidade e do universo da Bahia, capital também da saga que me foi dado escrever para contar ao mundo, em 50 línguas, a verdade esse povo. No Pelourinho nasceram e viveram os personagens que recriei do duro ofício do romance: o mulato Pedro Arcanjo – pardo, paisano e pobre, sábio e obâ -, aquele único que não se deixou limitar com a arrogância da cultura, manteve-se fiel a decente; no Maciel, a moça Tereza Batista comandou a greve das putas; no largo, ressuscitado pelos amigos, Quincas Berro D'água afirmou a vida sobre a morte; na Igreja do Rosário dos Negros, os pastores da noite batizaram o filho de Massu, afilhado de Ogum. No Pelourinho aprendi a acreditar em milagres, nos milagres do povo. Um milagre me foi dado ver; a grandeza restaurada, o Pelourinho, patrimônio da humanidade e do povo da Bahia, restaurado em sua magnificência, voltando a ser como foi um dia, no passado. No decorrer dos anos, no correr do tempo, os desatentos, os néscios, os salafrários – tantos! – permitiram e colaboraram com a destruição diária da beleza, deixaram que a herança imensa dos antepassados se deteriorasse em ruínas, diminuíssem. Andar no Pelourinho era uma tristeza sem tamanho, a continuar o abandono, em breve já nada restaria para recordar o dia de ontem e afirmar o dia de amanhã.

Em certa ocasião, vai longe, eu regressava de viagem à Europa, você era o prefeito da cidade da Bahia. Ao constatar que outra cidade nascia da velha urbe provinciana e colonial, escrevi um bilhete àquele que a transformava, dizendo: "Sou seu adversário político, mas não sou cego", como negar a evidência? Temos sido, querido Antonio, por muitas vezes adversário na maneira de pensar o Brasil, mas prosseguimos sempre amigos, pois somos, um e outro, cidadãos que possuem um conceito democrático de vida, o sentimento da democracia faz parte da nossa natureza: não se é democrata por ser de esquerda, centro ou direita, a democracia não se condiciona a um posicionamento político, é condição e exercício de cada pessoa.

Hoje volto a escrever a meu amigo Antonio Carlos para aplaudir com entusiasmo e júbilo o milagre que me foi dado ver quando sentados no batente de um dos casarões restaurados, Carybé, Zélia e eu choramos de emoção. Creio que fica difícil, mesmo para os adversários mais ferozes do político ACM, desconhecer e negar a obra exemplar do administrador, a recuperação do Pelourinho.

Não lhe devesse a Bahia realizações do prefeito e do governador – e muitas lhe deve nos setores mais diversos, em minha condição de escritor saliento a atenção e o empenho contínuos concedidos à cultura em suas administrações – e teria de lhe ser reconhecido pela restauração histórica, pelo milagre do Pelourinho. Teria de ser e é reconhecida: o povo está mais além das pequenezas da política. Muitas coisas, em matéria de progresso, a Bahia deve a quem foi prefeito da capital e, por três vezes, governador. Nenhuma, porém, de certo, comparável à restauração do Pelourinho, restauração da grandeza. Com ela, Antonio Carlos Magalhães entrou para a História, assim mesmo com H maiúsculo, a História da Bahia e do Brasil.

Nas ruas do Pelourinho restaurado, venho reencontrar a esperança, supero o desespero e a angústia, volto à crença na pátria e no futuro. "Como baiano e brasileiro, cabe-me dizer: obrigado querido amigo."

Texto publicado originalmente em O Globo e republicado pelo Correio em 13/12/1999 – Coluna Poder – pág. 03

bottom acm